A Mulher Que Não Prestava – Tati Bernardi

A Mulher Que Não Prestava – Tati Bernardi

Tati Bernardi 83 páginas
5.0/5.0
SINOPSE

Para quem conhece o estilo de Tati Bernardi, este livro é uma seleção dos melhores contos da escritora. Para quem não conhece, vai um conselho: prepare-se para um encontro com o espelho. Isso mesmo. A mulher que não prestava está aí, dentro de você. Geralmente ela é domesticada e não mostra a cara. Mas a da Tati é ousada, sincera, neurótica e indecente. Neste livro você vai encontrar contos românticos, ácidos, mal-humorados e divertidos. Essas são as múltiplas faces de Tati Bernardi: a mulher moderna que busca equilibrar a vontade de engolir o mundo com a espera do príncipe encantado.

'Eu me largava no sofá verde e ficava sonhando com a vida; tudo era novo demais para mim e eu precisava ficar paralisada para digerir o mundo. Meu avô não se conformava e andando de um lado para o outro da casa dizia: 'Essa criança não presta pra nada'. Mais tarde, na escola, eu não chamava nenhuma atenção na hora do recreio, meu uniforme servia pra me deixar ainda mais com corpo de criança em meio àquelas garotas já encorpadinhas, e meu cabelo colaborava para que eu fosse tão estranha quanto os meus pensamentos. Mesmo que eu ficasse sentada observando tudo e ganhando uma sensibilidade que aquelas meninas de cabelos lisos e coxas de bailarina nunca teriam porque estavam ocupadas demais com a nova tiara da Pakalolo, o guia de orgasmo juvenil da Capricho e o novo aluno com motorista particular, sob olhos superficiais eu não prestava para absolutamente nada. Fui demitida do meu primeiro estágio porque eu não servia para aquilo, e depois dele eu mesma me demiti de mais uns cinco estágios e de uns quatro empregos. Eu continuava não prestando para eles, mas pelo menos tinha aprendido a hora de abandonar antes de ser abandonada, tática que usei a vida toda também com os homens. A verdade é que ninguém, no fundo, presta, mas só quem é realmente idiota pra assumir é que aparece e vira referência. Foi pensando assim que descobri minha serventia, a melhor de todas: espelhar o mundo imprestável em mim enquanto os outros vivem em paz com suas máscaras. Eu sirvo para o serviço sujo, enquanto os outros sorriem de banho tomado e roupas novas e caras. A mulher que não prestava é uma pessoa, como você, extremamente ordinária. Com a única diferença de que muitos escondem isso para sobreviver, e eu sobrevivo justamente mostrando.'

Bom espelho.

Tati Bernardi

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